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Terça-feira, 24 de Novembro de 2009

 

 (Barcelona, Please don't go)

 

 

Olá, 

 

Sou eu quem me despeço de ti hoje; enquanto as folhas ainda caem e o vento ainda povoa as mais desérticas terras com os seus fortes laços de gelo, bem do lado de lá da janela para a qual olhaste depois de teres lido o remetente. 

 

Quem mais poderia se despedir de ti se não eu? Não me ausentaria antes de te olhar; mas saberias tu que aquele olhar era a despedida? Não. Eu apenas disse: "Amo-te". Não me odeies por isso. E estou certa de que não terás a força para me odiar depois de morta da tua vista para sempre e sempre... Mas poderias tu suportar a dor se te disse-se "Adeus"?! Deixar-me-ias ir? Não... claro que não. Fomos feitos um para o outro. 

 

Numa destas noites, antes de partir, fora-me dado o entendimento de que, se te sorrisse ao invés de derramar tristezas, poupar-te-ia dos sentimentos do mundo que tanto te perturbam na minha ausência. Não sofrerás tu ainda assim? Eu não julgo que sim, tanto mais quanto tenho certezas de que, neste exacto momento, o papel que escolhi com tanto cuidado na rua onde chocámos no dia de chuva de Dezembro à dois anos atrás, é alvo das tuas lágrimas pesadas de amargura. O sabor da tua boca enoja-te, a posição em que estás já não te reconforta mais, a tua mente assemelha-se ao confuso tráfego, os sons que ouves não são a música melancólica que poderias eleger para este momento. E o cheiro? O cheiro que tanto reconforta a chocolate quente extinguiu-se.

 

Eu sei meu amor... é assim que me sinto. Escrevo-te esta carta num comboio com destino a um porto que nada sei acerca e, mal entrei nele, senti-me insegura ao me aconchegar nos frios bancos mas agora, ao fim de seis horas, o meu corpo já aqueceu a almofada e já se acomodou aos solavancos repentinos e às mudanças de paisagem.

 

Ambos sabemos que este será o nosso ultimo contacto e nem sei se quererei começar – ou terminar - por aí. Ninguém sabe dizer "adeus", mas… 

 

Peço perdão pela impotência que estou a gerar dentro de ti e que te corrói de  uma forma louca e desmedida como se te arrancasse o coração. Peço perdão pela vontade que tens agora de queimar todas as nossas lembranças; por nem sequer te conseguir fazer saber onde estás e por não estares aqui comigo. Peço perdão por te roubar uma eternidade de beijos e amor que poderíamos trocar infindavelmente. Peço perdão pelo pior sentimento de todos: a negação.  

 

É verdade… eu vim. E não me peças para não ir enquanto que já vim; enquanto que os nossos corpos já se encontram separados por mil e uma barreiras que determinam as noites e dias que demoraríamos até nos voltarmos a cruzar com exactidão. 

   

Quem sabe, meu amor, num outro dia chuvoso em Dezembro...

 

Amo-te

 

p.s. - sabias que aqui não faz chuva?

 


Agradecimentos: João Almeida

 

 

publicado por sawyer às 22:36
música: Barcelona, please don't go

Lindo...
Magnífico
Pedro a 1 de Dezembro de 2009 às 14:24

Uau adorei :)
Cila a 14 de Dezembro de 2009 às 21:49