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Quinta-feira, 27 de Maio de 2010

 

 

 

 

Mamã, hoje desejei imenso ter vivido a infância que viveste; ver o mundo da forma como o viste – natural e ingénuo. Sei que quando nasci as coisas mudaram muito no espaço de poucos anos e pergunto-me como é que o tempo pode ser tão rápido se nem sequer saí do mesmo sítio. O avô contou-me como era antes: Os primeiros bondes apareceram há quase 193 anos e eram puxados por cavalos. Nesse tempo, havia motores a vapor, mas era mais fácil arranjar dois cavalos que um motor. Quando chegavam ao fim da linha, bastava tirar os cavalos da frente, colocá-los na parte de trás e começar a viagem de volta. Foi uma evolução bastante gradual e só no século XXI é que os transportes passaram a ser mais velozes e eficientes. Mas, agora diz-me, do burrinho aos cavalos, da bicicleta ao eléctrico, do carro a vapor aos carros de alta velocidade, como é que o Homem actualmente, no espaço de dezassete anos passou do burrinho ao carro de alta velocidade e equipado? Tudo isto porque, após ler mais umas páginas do teu diário, fiquei nostálgica acerca da quem somos hoje e de quem eram as pessoas de ontem. Será que temos vindo realmente a perder a nossa individualidade à medida que as Ciências nos engolem como monstros?

Ontem até dei com o papá a trazer para casa aquelas novas vitaminas que substituem tudo o que de essencial necessitamos para uma refeição equilibrada. Eu fiquei aborrecida com ele; juro que fiquei. Se tanto prezo o mundo em que vivias e tanto desejo ter-me enganado no tempo quando nasci porque é que ele insiste em impor-me o presente e a fazer-me reger pelo que é hoje a realidade? “Eu quero ter um quintal!”, disse-lhe ontem. Mas ele nem ligou. Disse que não precisamos dessas coisas quando temos tudo o que um quintal nos pode dar num comprimido só.

Lembro-me que no teu diário dizias “Comer é uma arte!”. Eu temo nunca vir a sentir esse gosto tão prazeroso que descrevias cada vez que algo de doce te ia à boca e atravessava a tua garganta num só gole. A primeira vez que li isso não entendi mas depois lembrei-me de quando era pequenina, bem pequenina! Recordo-me de ter as minhas mãos recheadas daquilo a que eu costumava chamar de ‘cócólate’. Tenho essa imagem gravada na minha mente e vejo-me agora mesmo a lamber a palma das minhas mãozinhas até à ponta dos meus dedinhos e tu ralhavas comigo… mas eu ria-me. Sempre disses-te que eu era rebelde e agora acho que tens razão. É pena só poder admiti-lo depois de teres ido embora, mas eu sei que estas palavras vão chegar a ti, mãe.

Tudo isto porquê? Porque para além de à dois anos atrás nos terem obrigado a inserir micro-chips dentro da nossa pele para gravar tudo o que temos na nossa mente agora também se perdem! Ontem, quando regressava a casa depois de te visitar, vi algo brilhar no chão de terra seca, contrastando com o castanho apagado das escadas do cemitério. Peguei nele claro! Não se fiz bem se não, só sei que agora tenho nas minhas mãos a vida de alguém que não conheço. E o que faço? Se entrego o chip às autoridades, toda a privacidade e individualidade dessa pessoa estariam a ser exploradas. Não sou eu que sou contra isso? Mas como é que vou devolve-lo à pessoa a quem pertence? Com certeza era muito importante que ela reencontrasse o seu chip. Tem ainda outra questão que não me sai da cabeça: Como é que ela perdeu o chip?! Tudo bem que ele encontra-se a um nível mais superficial da pele mas, a não ser que essa pessoa tenha sofrido um acidente, como é que o retirou? Será que não queria viver mais com as suas memórias? Será que o seu passado a magoava assim tanto de tal modo a que o destino mais desejado fosse o desconhecido? Tantas questões e nenhuma resposta… Quem será? Tenho o direito de saber?

-  Peyton?

 

 

publicado por sawyer às 21:21
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Desculpa. Sinceramente estou farto, farto. Farto de ler, ler, ler e não fazer nada. Afinal estas obras merecem ser contempladas, valorizadas. uma coisa boa deve ver o seu valor reconhecido.
Pois, deixa-me dizer-te que escreves como ninguém. Tens um dom, e acho que deves usa-lo todos os dias porque olha-me o que sai quando escreves. OBRAS DE ARTE ! “Comer é uma arte!” para ti e o quando tu escreves é uma arte para mim.
Fazes pequenas palavras baloiçarem entre si, harmoniosamente, constróis uma melodia para os nossos ouvidos, começas a desvendar um novo mundo, quando nós, aqueles que lemos, começamos a encarnar as tuas personagens ai que chega uma frase que nos transpõe de novo de volta para a nossa realidade, ou um virgula, que nos deixa respirar, ganhar fôlego para continuar a ler-te na próxima frase. Evita os pontos finais tenebrosos que me fazem ansiar pelo próximo excerto de história, ou próximo pedaço de vida, como lhe queiras chamar.
Continua pequena Sawyer , este livro ainda não acabou. Eu quero mais. Todos nós ansiamos por mais e mais das tuas palavras.


Ly Swayer , encantas com as tuas palavras.

João Almeida ( fã nº1) a 5 de Junho de 2010 às 14:07